sexta-feira, 17 de Abril de 2009
deixar ir... 1 ou 2
Por entre as brechas desejavelmente deixadas
O verde a bater na janela
O vento a soprar sempre defronte.
Do outro lado, no entanto, nada se enxerga
Apenas uma luz baça a perspectivar o idílio.
Lá se vai um ou dois,
A desprender-se das quimeras dos tempos
O desejo a libertar a alma
A desvanecer aquilo que lhe é alheio
Deixando o caminho sumptuosamente descomprometido.
sábado, 29 de Novembro de 2008
Leve
Eu quero inteiro, porque jamais seremos metade
Eu quero dentro, para que não haja espaços
Eu quero que pulse, para nos mantermos vivos
Eu o quero consciente, para que não haja incertezas
Eu o quero profundo, porque só assim seremos plenos.
D.R
segunda-feira, 10 de Novembro de 2008
silêncio
Seus olhos evitavam o contacto, numa postura dura, incomodada. A cada vã tentativa um sorriso trancado não permitia qualquer tipo de retorno, mesmo aqueles mais suaves. Sem entender o por que de tal facto, ela se pôs sentada do outro lado da sala, apenas a observar os seus movimentos. E ali permaneceram por alguns longos minutos, não permitindo, reciprocamente, que o outro apanhasse um pequeno deslize de seus olhares ao cruzarem-se.
sábado, 9 de Agosto de 2008
Num sonho
Sonhei que acordava
e que a vida estava
de porta entre-aberta.
Acordei mas sonhava
de calendário a janela
a espera... a espera...
O menino de um mês
que segura a palavra
do lado de dentro
se rende ao corpo
mas não entrega o profundo.
A menina do canto
espreita
do lado de fora
enunciando possibilidades
de verdade ou ilusão.
segunda-feira, 30 de Junho de 2008
... e que o silêncio é tão momentâneo que mal posso ouvi-lo...
..que a vida é um difícil obstáculo no qual o meu corpo me mantém presa...
... e que a liberdade é uma doce ilusão...
abrir e fechar os olhos... inspirar e expirar... salivar, engolir, transpirar... tencionar, relaxar... pensar, guardar, esquecer... recordar e sentir
No meio da madrugada um resquício de luz surge sob minha cabeça, variando ritmos configura-se em linhas rectilíneas...
Procuro um foco susceptível de reflectir o estranhamento... mas nada parecia ser originário de tal fenómeno… Quedo em posição de observadora, e espero dali uma resposta transcendente.
Com o corpo perspectivado, acedo-me a sensações inquietantes; por um lado abstrusa; confronto as quimeras dos entre- tempos; por outro, parcimoniosa descanso no consolo dos dias indivisos.
E como um herói descomprometido, o sono aparece fugaz a acoitar meus arcanos.
O que saber de mim para além dos meus actos, da minha rotina, do meu dia-a-dia?
Como podes saber mais da minha vida do que aquilo que consigo entender?
Eu não sou aquilo que se configura no que pode vir a ser
Eu sou a realidade que me bate a porta e que por vezes me recuso abrir
Eu não sou nada além de mim mesma, mesmo sem saber ao certo quem sou
Eu só sei aquilo que não quero mas não sei nada além disso
Poderia vaguear permutando desejos e conflitos alheios ou contíguos
Mas o que mais poderia ser do que o desejo expressado?
Eu queria acreditar em todas as palavras
Fechar os olhos e esquecer os meus receios e preconceitos
Eu queria um mundo menos idealizado e mais concreto
Mas como fugir do meu racionalismo?
Seria eu tão previsível como as tuas palavras?
Eu queria acreditar neste futuro invulgar
Eu queria estar além da mediocridade das vidas comuns
Mas meus dias não são tão diferentes daqueles que um dia neguei.
Espero que as tuas palavras estejam certas
E que um dia eu seja tão completa e consciente ao ponto de partilhar aquilo que sei que sou.
D.R
Para isso...aos poucos, fui soltando as amarras pré-estabelecidas, contornando os conceitos, as supostas verdades...e me deparei com o nada...porque já havia me despido de tudo aquilo que me era referência...
Respirei... Senti o ar entrar dentro de mim sem nenhum constrangimento... e por um segundo, sentia-me amanhecer
De peito cheio, um sopro de vida bateu-me no estômago... e não pude ver os dias passar...sangrei por dentro... e dessa verdade só resta a memória.
fugi... e o recomeço me fez Pessoa... pude olhar a vida da janela do meu quarto, e de tantos outros o meu covil era quase imperceptível.
Quando quis ir para fora... já não havia espaço e tive que comprimir o ar... mas uma estranha leveza se pôs aos meus pés e me conduziu à um lugar inimaginável... gozei.
Quando voltei a mim... já não podia ser a mesma, os outros já não eram os mesmos... e a realidade bateu-me a porta: o que poderia fazer? Para onde poderia ir? Não sabia o que queria ser.
Dos dias fiz os meus tempos... e esses de tão voláteis e flexíveis me conduziram a um mundo líquido, que insiste em escorrer pelas minhas mãos... e hoje penso: como fixar-me? Já não sei se consigo ter raiz.
