Terça-feira, 1 de Junho de 2010

Ela estava numa das extremidades, doce e pouco torrada.
Distinguia-se por sua silhueta pequena e pelos seus olhos brilhantes.
Coleccionava envelopes, enviava-os vazios para si mesma, porque não suportava a ideia de guarda-los se não houvesse remetente.
Tinha uma preocupação genuína em alertar por carta os seus contrários, mas o destino estava sempre selado.
A sua esperança era a de suprimir as inconsciências porque só assim poderia carregar os fardos intoleráveis.
Durante algum tempo calculava possibilidades com graus de incertezas.
Convencia-se das incapacidades da verdade e com alguma bravura olhava-se ao espelho.
Tinha uma voz firme mas pouco cortante, como se seu palato fosse seco e a lingua aveludada.
Fumava cigarros com filtro, mas só conseguia fuma-los com a mão direita
Gostava de enfiar a cabeça nos buracos, efiava-se em quase todos numa tentativa de encontrar um lugar onde não pudesse mais sair.
Gostava de encontrar o fundo das coisas, só que esse fundo nunca existia.
Sorria quando compartilhava o que era real ou pudesse vir a sê-lo, transformava-se numa criança completamente transparente.
Era capaz de passar horas expondo os seus argumentos porque neles encontrava a sua vaidade.
No amor escorria, diluia-se em agua; nada que parecesse a alguma convensão erótica.
As suas recordações eram memoradas por camadas frescas de encontros e separações, havia noites que combinava com as manhãs, servia-se de vinho e escutava o barulho do vazio.
Assim passava os seus dias, desmontanto suas ilusões, criando novas fantasias, tentando prever o futuro rodeada pelo passado.

Sexta-feira, 23 de Abril de 2010

O sol afogava-se nos seus dedos pequenos... apertava-o com a suavidade de um botão de luz entre os lábios e a agua... com doçura, os seus gritos em desmaio ressoavam a musica do orvalho caído das violetas, e ali, dissolvia-se em madrugada.

Quarta-feira, 27 de Janeiro de 2010

cruzamentos

E havia tanto para dizer,

Foram tantas experiencias vividas que delimitar o inicio de uma conversa tornava-se uma tarefa conflituosa.

Depois de tudo, o silêncio aparecia como encosto cómodo daqueles que consentem e sentem profundamente o peso de toda uma existência. Uma infinidade de inícios e tentativas de manter-se juntos mesmo sem saber ao certo o rumo diário dos impulsos e desejos intrínsecos de suas individualidades, fazia com que cada dia fosse uma novidade e uma espécie de conquista sem troféus.

Deixar ir, ou deixar andar, era um lema seguido a risco porque só assim garantiria as suas liberdades, que a tão pouco tempo foram postas em causa.

O desejo libertador de respirar ar fresco soava como coisa nova que não se podia deixar passar, mas havia uma marca profunda tingida a vermelho, que de certa forma causava mal-estar, porque não fora coisa pouca, e mesmo que a capa vestida para os outros transparecesse leveza e superficialidade, no íntimo sabiam que nada mais seria como antes.

Duas existências cruzadas, vivenciadas, marcadas… que num suspiro de vida cravaram em si uma existência perdida… o que restava era algo maior lá dentro, ambíguo porque mesmo sem conseguir estar longe não se sabia o que fazer com o outro.

Ninguém colocava em causa o sentimento que os unia, mas mesmo sem entender o por que, o desejo individualista de liberdade colocava em risco a existência de liberdades compartilhadas… como se estas não pudessem confluir naturalmente.

O tempo amigo e inimigo de suas convicções começara agora a marcar pontualmente o rumo das suas existências… o futuro incógnito cobrirá algo que pode passar sem nunca estar resolvido… no ar permanece o desejo e a angústia que os aproxima e os separa num impulso de vida que não quer ser perdida… Oxalá que consigam resolver-se antes que o tempo resolva-os por si.


Coimbra, 23 Janeiro de 2010.

Sexta-feira, 17 de Abril de 2009

deixar ir... 1 ou 2

Lá se vai um ou dois,
Por entre as brechas desejavelmente deixadas
O verde a bater na janela
O vento a soprar sempre defronte.
Do outro lado, no entanto, nada se enxerga
Apenas uma luz baça a perspectivar o idílio.

Lá se vai um ou dois,
A desprender das quimeras dos tempos
O desejo a libertar a alma

A desvanecer aquilo que lhe é alheio
Deixando o caminho sumptuosamente descomprometido.

Sábado, 29 de Novembro de 2008

Leve

Eu o quero leve e suavemente picante
Eu quero inteiro, porque jamais seremos metade
Eu quero dentro, para que não haja espaços
Eu quero que pulse, para nos mantermos vivos
Eu o quero consciente, para que não haja incertezas
Eu o quero profundo, porque só assim seremos plenos.
D.R

Segunda-feira, 10 de Novembro de 2008

silêncio

Seus olhos evitavam o contacto, numa postura dura, incomodada. A cada vã tentativa um sorriso trancado não permitia qualquer tipo de retorno, mesmo aqueles mais suaves. Sem entender o por que de tal facto, ela se pôs sentada do outro lado da sala, apenas a observar os seus movimentos. E ali permaneceram por alguns longos minutos, não permitindo, reciprocamente, que o outro apanhasse um pequeno deslize de seus olhares ao cruzarem-se.

Segunda-feira, 30 de Junho de 2008

Hoje sei que a essência é vermelha porque sangra....

... e que o silêncio é tão momentâneo que mal posso ouvi-lo...

..que a vida é um difícil obstáculo no qual o meu corpo mantém presa...

... e que a liberdade é uma doce ilusão


abrir e fechar os olhos... inspirar e expirar... salivar, engolir, transpirar... tencionar, relaxar... pensar, guardar, esquecer... recordar e sentir



No meio da madrugada um resquício de luz surge sob minha cabeça, variando ritmos configura-se em linhas rectilíneas...

Procuro um foco susceptível de reflectir o estranhamento... mas nada parecia ser originário de tal fenómeno… Quedo em posição de observadora, e espero dali uma resposta transcendente.

Com o corpo perspectivado, acedo-me a sensações inquietantes; por um lado abstrusa; confronto as quimeras dos entre- tempos; por outro, parcimoniosa descanso no consolo dos dias indivisos.

E como um herói descomprometido, o sono aparece fugaz a acoitar meus arcanos.

Desabafo...

O que saber de mim para além dos meus actos, da minha rotina, do meu dia-a-dia?
Como podes saber mais da minha vida do que aquilo que consigo entender?
Eu não sou aquilo que se configura no que pode vir a ser
Eu sou a realidade que me bate a porta e que por vezes me recuso abrir
Eu não sou nada além de mim mesma, mesmo sem saber ao certo quem sou
Eu só sei aquilo que não quero mas não sei nada além disso
Poderia vaguear permutando desejos e conflitos alheios ou contíguos
Mas o que mais poderia ser do que o desejo expressado?
Eu queria acreditar em todas as palavras
Fechar os olhos e esquecer os meus receios e preconceitos
Eu queria um mundo menos idealizado e mais concreto
E o que faço com o meu racionalismo?
Seria eu tão previsível como as tuas palavras?
Eu queria acreditar neste futuro invulgar
Eu queria estar além da mediocridade das vidas comuns
Mas meus dias não são tão diferentes daqueles que um dia neguei.
Espero que as tuas palavras estejam certas
E que um dia eu seja tão completa e consciente ao ponto de partilhar aquilo que sei que sou.
D.R
Eu sempre achei a liberdade a melhor saída...
Para isso...aos poucos, fui soltando as amarras pré-estabelecidas, contornando os conceitos, as supostas verdades...e me deparei com o nada...porque já havia me despido de tudo aquilo que me era referência...
Respirei... Senti o ar entrar dentro de mim sem nenhum constrangimento... e por um segundo, sentia-me amanhecer
De peito cheio, um sopro de vida bateu-me no estômago... e não pude ver os dias passar...sangrei por dentro... e dessa verdade só resta a memória.
fugi... e o recomeço me fez Pessoa... pude olhar a vida da janela do meu quarto, e de tantos outros o meu covil era quase imperceptível.
Quando quis ir para fora... já não havia espaço e tive que comprimir o ar... mas uma estranha leveza se pôs aos meus pés e me conduziu à um lugar inimaginável... gozei.
Quando voltei a mim... já não podia ser a mesma, os outros já não eram os mesmos... e a realidade bateu-me a porta: o que poderia fazer? Para onde poderia ir? Não sabia o que queria ser.
Dos dias fiz os meus tempos... e esses de tão voláteis e flexíveis me conduziram a um mundo líquido, que insiste em escorrer pelas minhas mãos... e hoje penso: como fixar-me? Já não sei se consigo ter raiz.