Ela estava numa das extremidades, doce e pouco torrada.
Distinguia-se por sua silhueta pequena e pelos seus olhos brilhantes.
Coleccionava envelopes, enviava-os vazios para si mesma, porque não suportava a ideia de guarda-los se não houvesse remetente.
Tinha uma preocupação genuína em alertar por carta os seus contrários, mas o destino estava sempre selado.
A sua esperança era a de suprimir as inconsciências porque só assim poderia carregar os fardos intoleráveis.
Durante algum tempo calculava possibilidades com graus de incertezas.
Convencia-se das incapacidades da verdade e com alguma bravura olhava-se ao espelho.
Tinha uma voz firme mas pouco cortante, como se seu palato fosse seco e a lingua aveludada.
Fumava cigarros com filtro, mas só conseguia fuma-los com a mão direita
Gostava de enfiar a cabeça nos buracos, efiava-se em quase todos numa tentativa de encontrar um lugar onde não pudesse mais sair.
Gostava de encontrar o fundo das coisas, só que esse fundo nunca existia.
Sorria quando compartilhava o que era real ou pudesse vir a sê-lo, transformava-se numa criança completamente transparente.
Era capaz de passar horas expondo os seus argumentos porque neles encontrava a sua vaidade.
No amor escorria, diluia-se em agua; nada que parecesse a alguma convensão erótica.
As suas recordações eram memoradas por camadas frescas de encontros e separações, havia noites que combinava com as manhãs, servia-se de vinho e escutava o barulho do vazio.
Assim passava os seus dias, desmontanto suas ilusões, criando novas fantasias, tentando prever o futuro rodeada pelo passado.
Terça-feira, 1 de Junho de 2010
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